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Escrevo

Nem sempre escrevo, assim como nem sempre leio, ou penso, ou sinto. Felizmente, escrevo quando penso e às vezes quando sinto. Pode ser mau, pode ser bom, o importante é que escrevo. Sem palavra caras, que saem baratas por terem como única funcionalidade romper a barreira do banal. Escrevo porque preciso de escrever, sem interessar se é bom ou mau.
Ao contrario de muitos não consigo escrever um texto com a facilidade com que respiro ou pisco os olhos. É como se uma luz forte toldasse  a mente e amarrasse a criatividade a um muro cinzento desprovido de significados. Aí, por mais que tente, as palavras que imprimo em papel são vazias e fúteis. São obrigadas, da mesma forma que todos nós fomos obrigados a arrumar o quarto, ou a comer vegetais, ou a sopa, ou a dar um beijo áquela tia muito muito feia que até tinha barba. E tal como as pessoas obrigadas, as palavras obrigadas não colaboram.

Adoro quando saem naturalmente fluidas, embebidas de significado e com o brasão da minha existência.  São a fuga que nunca tive. Da realidade, da irrealidade. Um mundo onde mais do que rei do meu cógito, sou seu melhor parceiro.
Ler vale a pena. Pensar vale a pena. Escrever vale a pena.  Mas tem de ser genuino. Fazê-lo porque “é bonito” não é fazê-lo. Tem de sair de rompante, como uma torrente de chuva, mas em ideias concisas e organizadas. Se não sai do fundo das entranhas, se temos de estar horas sentados para escrever uma página, se temos de corrigir as frases 3 e 4 vezes, não vale a pena. Se o estamos a fazer por dinheiro não vale a pena. Temos de esquecer e mergulhar. Não ser como alguns outros, aborrecidos, velhos, entediantes. Sempre que escrevo escrevo algo que gostaria de ler escrito por alguém. Alguém melhor, alguém que domine as palavras sempre precisar de um chicote existencial para as domesticar. São selvagens as palavras. Fazem rir e chorar como as pessoas nos fazem a nós. Muitas vezes elas próprias riem e choram. São as minhas preferidas, aquelas que me fazem acreditar que riem e choram.


São as palavras loucas que gosto de ver no papel. Aquelas que ardem por viver, por ganhar forma na nossa  imaginação. As não-cliché, aquelas que fazem cada momento ser único e inteiramente individual.
Escrevo porque quero, porque gosto e porque, em raros momentos, felizmente o  consigo. Escrevo porque em alturas efémeras aquela luz que antes me toldava a mente e amarrava a criatividade já não existe. Ou afinal existe, mas agora sou eu essa luz. E sem nada a impedir-me,  as palavras antes timidas e inseguras soltam-se.

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