O Boato Catarina Nobre
Boato: s.m. notícia anónima que corre publicamente; atordoada, balela, rumores.
Notícia anónima? Isso é discutível… Então, partindo do pressuposto que estamos a comentar um acontecimento, possivelmente “acrescentando um ponto” – que passa de boca em boca – e tendo em conta que cada uma dessas bocas obedece a uma determinada entidade racional… Talvez o anonimato seja referente à fonte primária, mas mesmo assim… Adiante.
Podia escolher um grupo-exemplo exclusivamente feminino (e fá-lo-ei), mas deixemo-nos de hipocrisias, porque se optasse por um outro representado pelo sexo masculino, também seria um excelente candidato ao caso.
Neste sentido, pondo em prática o habitual dogma, não é difícil idealizar uma tarde entre um conjunto de damas na Idade Média, com opulentos vestidos, penteados exuberantes e poses circunscritas pela etiqueta. Trocam-se palavras, vivências próprias, elogios forçados, a família está

óptima, a cozinheira não põe sal na comida e as outras pessoas. Quando se inicia o último tópico há sempre um ajuste de posição, um arregalar de olhos, um novo e irresistível estímulo para enervar, picar e fomentar algo que não é nosso… Isto porque, sinceramente, grande parte daquela energia que une e agarra os seres humanos a uma relação é o reconhecimento de que se partilha algo em comum: um sentimento, uma experiência ou uma informação.
Peço desculpa, mas tenho que quebrar o ritmo: relembro que estou a remeter o leitor para uma época passada. Qualquer semelhança com a actualidade é pura coincidência, obviamente.
A prima da vizinha tem isto e a mulher do patrão fez aquilo, ouvi dizer. Mas é segredo!
Seguem-se comentários amigáveis e/ou depreciativos e acrescentam-se ainda outras versões para adornar a estória e torná-la mais empolgante. Porém, qualquer nota adicional não muda a cobardia do padeiro ou a leviandade da rainha. Estes mantêm sempre o seu inabalável inconveniente… Talvez por não se encontrarem presentes para se defender, talvez por ser mais fácil e viável a má-língua e tagarelice… Na minha opinião, é por desprezo ou despeito desmedidos – passo a aliteração. Mas isto é só uma consideração desprovida de qualquer juízo de valor.
De uma maneira ou de outra, tanto o padeiro como a rainha continuam a sua vida… Pode é dar-se o caso de o coitado ser mesmo um grandessíssimo calão e, por outro lado, (afinal!) a majestade não passar de um poço de boas intenções.
Um diálogo contado e recontado pode adulterar reputações e relações? Possivelmente. Se pode ser evitado? Claro que não, seria precisamente a mesma coisa.
Então, se pode prejudicar pessoas e “é feio”, porque é que se insiste? Ora essa, e porque não? Em princípio só é aborrecido, ou quando nos toca a nós, ou quando há uma mentalidade com um exemplar sentido de dignidade moral.
Uma vez alguém me aconselhou: “Faz o que eu digo, não faças o que eu faço”. É a minha vez de o aplicar ao contexto.

